Eu fui mordido pelo ciúme naquela noite. Tudo me irritava: seu cigarro, seu olhar longe, o sorriso preso entre seus lábios. Nada te machucava. Queria ter tido coragem de te matar ali, te estrangular, apertar sua garganta até que você parasse de respirar. Mas a única vontade que eu realmente tinha era essa de te dar um beijo longo, um beijo que te segurasse comigo.
E todos esses dias arrastados em que meus sonhos foram acorrentados às suas pernas, você me levou para longe, tão longe que eu mal podia me alcançar, nem mesmo quando eu achava que havia alcançado você. Alguma vez eu já te alcancei? Eu sei, você nunca vai dizer. E das manobras que a vida deu, eu nunca pensei que pudesse te perder.
Era sempre um alívio quando eu não dormia do seu lado, porque o som do seu sono sempre levou meus olhos a circularem por todo o quarto procurando alguma saída. E eu, que nunca soube fugir, pensava que se segurasse firme o travesseiro e te sufocasse logo de uma vez... Talvez eu viesse a me libertar. Mas no fundo eu sempre soube que viver tentando te matar foi o que te manteve tão vivo dentro de mim.