sábado, 28 de julho de 2012

Cedo

Eu acordei do outro lado da cama, procurando você. Debaixo dos lençóis e do edredon, dos beijos pela manhã que eu ainda não te dei. Eu acordei do lado de lá da cama, procurava você. E nas palavras pela manhã, um pedaço de mim que eu ainda não te alcancei. Eu acordei, e sentado na cama, abraçava no travesseiro a parte minha que eu esqueci em você.

Aos poucos

Acho tenso deixar todo aquele passado ir. É difícil me deixar pro vento levar, e ao mesmo tempo levantar e correr atrás daquilo que eu acho que quero. É, acho. Eu nunca tenho certeza. Sabe? Não sei se vale o risco, ou o sacrifício. Mas é como se o desenho tivesse mudado, e as peças do quebra-cabeça tivessem que se encaixar diferente dessa vez para montar alguma coisa bonita. E eu só estou aqui, tentando montar alguma coisa bonita. Um quadro novo, desses de deixar na parede. Às vezes a gente demora para se encaixar, mas é só sair, respirar fundo, bater o olho direito, que as coisas encontram o seu lugar, assim, aos poucos.

Possibilidades

Eu ia dormir. Ia mesmo, juro que ia. Dormir em silêncio, e sem você. Sem nem pensar em você, aqui comigo. Mas as possibilidades... Se eu te topasse em alguma esquina do meu bairro? Não te notaria. Repararia no jeito como você anda. Encararia seus olhos, ou seu cabelo. Eu abaixaria a cabeça e passaria reto. Tropeçaria no seu cheiro. Atravessaria a rua e te perguntaria as horas. Te roubaria um beijo. Roubaria seu telefone. E se eu roubasse você? Um dos seus dias. Todos eles. Colocaria todos eles dentro do meu bolso e levaria comigo. Ou deixaria esquecido dentro da gaveta. Debaixo do travesseiro. No meu armário. De quadro na parede. Enterraria no quintal.

Sua voz. Sua voz no meu ouvido. No telefone. No vídeo. No meu fone. Nas caixas de som do meu computador. Na minha cabeça. Você falando sempre. Você quieta. E se a gente não se falasse amanhã? E se a gente não se falasse mais? Nunca mais. Que vontade me deu. Vontade de falar com você.

Au revoir

Pensei que fosse doer mais, e de repente eu não senti mais nada. Nunca achei que esse enfim vazio pudesse me incomodar tanto. Não é como se eu sentisse a sua falta e quisesse te ver, não é como se eu ainda sentisse ciúmes ou vontade de voltar atrás, acho até que não me lembro da sua voz ou do seu cheiro. Talvez seja só uma saudade de sentir saudade, de ter algum sentido, bom ou ruim, em todo caso, um sentido. Talvez eu até prefira chorar, olhar para cima me perguntando onde foi que tudo deu errado. Mas agora eu vejo que tudo deu certo.

Um castelo invisível.

Em algum tempo eu te falaria, mas não hoje. Me sinto um idiota agora que meu passado parece não servir para nada, enquanto o seu é uma ponte pronta para fugir da tristeza. Agora é como se nada do que eu tivesse vivido fosse mesmo me ajudar a encontrar as melhores saídas, enquanto tudo o que você viveu continua vivendo. Em algum tempo eu até te falaria, mas não hoje, onde nada daquilo que é construído pela minha cabeça é real. É como se eu tivesse te construído um belo castelo, mas um castelo invisível, onde você só vive por lá nos meus pensamentos. Mas a pior sensação é essa que tenho de que te vi na vitrine e não pude pagar. E passo todos os dias para te ver atrás do vidro, sem poder te levar embora. Como eu queria poder te levar embora!

How low?

Eu fui mordido pelo ciúme naquela noite. Tudo me irritava: seu cigarro, seu olhar longe, o sorriso preso entre seus lábios. Nada te machucava. Queria ter tido coragem de te matar ali, te estrangular, apertar sua garganta até que você parasse de respirar. Mas a única vontade que eu realmente tinha era essa de te dar um beijo longo, um beijo que te segurasse comigo.

E todos esses dias arrastados em que meus sonhos foram acorrentados às suas pernas, você me levou para longe, tão longe que eu mal podia me alcançar, nem mesmo quando eu achava que havia alcançado você. Alguma vez eu já te alcancei? Eu sei, você nunca vai dizer. E das manobras que a vida deu, eu nunca pensei que pudesse te perder.

Era sempre um alívio quando eu não dormia do seu lado, porque o som do seu sono sempre levou meus olhos a circularem por todo o quarto procurando alguma saída. E eu, que nunca soube fugir, pensava que se segurasse firme o travesseiro e te sufocasse logo de uma vez... Talvez eu viesse a me libertar. Mas no fundo eu sempre soube que viver tentando te matar foi o que te manteve tão vivo dentro de mim.

Salt

"Vamos procurar um barco no horizonte do mar", brincando de cobrir os pés com a areia, assim você dissolvia tudo o que era problema. Eu te odiava só por ser tão seu! E seus braços eram minha casa. Naquela época eu viajava para descobrir você, debaixo do edredom, rindo de sono pela manhã.

Quando eu lembro dos seus olhos grandes... Não quero que você encaixe em mais ninguém! Eu quero ser seu fantasma de todo dia doze. E você ainda vai sentir vontade de me contar a cada gato que te cruzar pela rua, enquanto eu ficarei dissolvido na areia que cobre nossos pés, longe, feito o barco no horizonte do mar; só para você continuar procurando sem nunca mais me encontrar. Nunca mais.

Quando atravessar a rua

Saí pelo asfalto chutando pedras. E andava encarando o chão, apenas torcendo para que numa esquina qualquer um carro esquecesse de frear e passasse por cima de mim. O sentido fugiu de tudo, e eu só queria ter ido com ele, fugindo do mundo.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

é como se pegassem o meu coração, ateassem fogo, pisassem em cima e furassem com milhares de navalhas. filho, como eu queria você aqui...