Eis que você ainda se assusta com o barulho da garrafa de champagne abrindo. Quantos anos já? Pelo menos uns sete, diria. Um brinde e um gole. Outro, pra sentir o real gosto, aquele amadeirado característico do seu Moscatel frutado preferido. Acho que nunca admiti, por ser egoísta e me fingir de requintado, mas também é o que eu escolheria para um brinde, se soubesse que seria meu último. Você sempre criticou minhas manias, mas eu te enxergo com o canto do olho e vejo sua boca tocando a taça duas vezes, e, quando você lambe os lábios, ainda que discretamente, sei que é porque sentiu o tal "amadeirado". Mexo no controle do som ao dar mais um gole, e acendo um cigarro. Você se senta perto de mim, pega um livro, folheia e coloca de volta na mesa, quase que na mesma posição, com um dos pés embaixo da própria bunda. Parece um moleque, às vezes.
Mais um gole. Encher a taça agora vazia.
Nós dois sabemos que o moleque aqui sou eu. Você sempre teve os pés no chão, como se tivesse recebido o "manual de como viver nesse mundo louco", lido tudo e, ainda por cima, consertasse um ou outro erro do autor. Nada parece te abalar, nada penetra essa armadura que se esconde por baixo de uma das minhas camisetas e suas calças largas de moletom, sempre adornados por meias. Seu cabelo está mais curto, suas feições mais finas. Cara de mãe.
Sei exatamente o motivo pelo qual não estamos juntos, mas você se faz de despercebida, age como se não se importasse.
Não consigo terminar esse texto, pelo simples motivo de perceber exatamente qual o ângulo que seus olhos fazem pra me olhar. Que se dane, o que é um texto quando tenho um Moscatel barato servido por você? Sim, faz favor, pode servir.