sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Eis que você ainda se assusta com o barulho da garrafa de champagne abrindo. Quantos anos já? Pelo menos uns sete, diria. Um brinde e um gole. Outro, pra sentir o real gosto, aquele amadeirado característico do seu Moscatel frutado preferido. Acho que nunca admiti, por ser egoísta e me fingir de requintado, mas também é o que eu escolheria para um brinde, se soubesse que seria meu último. Você sempre criticou minhas manias, mas eu te enxergo com o canto do olho e vejo sua boca tocando a taça duas vezes, e, quando você lambe os lábios, ainda que discretamente, sei que é porque sentiu o tal "amadeirado". Mexo no controle do som ao dar mais um gole, e acendo um cigarro. Você se senta perto de mim, pega um livro, folheia e coloca de volta na mesa, quase que na mesma posição, com um dos pés embaixo da própria bunda. Parece um moleque, às vezes.
Mais um gole. Encher a taça agora vazia.
Nós dois sabemos que o moleque aqui sou eu. Você sempre teve os pés no chão, como se tivesse recebido o "manual de como viver nesse mundo louco", lido tudo e, ainda por cima, consertasse um ou outro erro do autor. Nada parece te abalar, nada penetra essa armadura que se esconde por baixo de uma das minhas camisetas e suas calças largas de moletom, sempre adornados por meias. Seu cabelo está mais curto, suas feições mais finas. Cara de mãe.
Sei exatamente o motivo pelo qual não estamos juntos, mas você se faz de despercebida, age como se não se importasse.
Não consigo terminar esse texto, pelo simples motivo de perceber exatamente qual o ângulo que seus olhos fazem pra me olhar. Que se dane, o que é um texto quando tenho um Moscatel barato servido por você? Sim, faz favor, pode servir.

sobre o nosso último romance.

que saudades que eu tenho daqueles dias. dias que a gente inventou uma paixão, que a gente fechou os olhos pro futuro e quis viver só o nosso cinema cult. dias que foram poucos dias, suficientes entretanto para deixar uma ácida marca de saudades dos seus pés pequenos. demorei tanto para ter a claridade dos teus olhos por perto que quando tive, não soube valorizar. fui orgulhoso e deixei reticências nessa nossa conversa antiga. talvez seja isso o que mais me dói. a história daquele filme parecia prever um futuro breve e a tua música eu já tirei da playlist (ela insiste em tocar nas rádios, fique tranquila). era um frio de Junho, parecido com esse vazio que você deixou na minha cabeça. você não lê muito as coisas por aqui, por isso resolvi entregar que fui muito longe por você. até criar um texto sem respeitar as maiúsculas eu criei. penso em dizer tanta coisa que reuni nesse tempo todo que eu torço pra esquecer ao passar dos anos. não sei dizer se tudo isso foi um adeus. é que a gente nem tchau se deu. e isso machuca.

Bublè

O vento fazendo a franja bater com força no rosto, tampando, por milésimos de segundos, a visão do olho esquerdo, como faz um ventilador. Aquela música baixa, com sotaque inglês, letra batida, forçada, usada, mas que encaixa tão bem no momento.
Parece que não, mas já anoiteceu. A impressão é de poucos minutos, mas passaram-se duas horas, suficientes para gelar o champagne sentado na porta do congelador, colocado em -24ºC e no congelamento rápido. Congelador ultrapassado, velho, sujo. Sujo como o interior da geladeira, que parece se alastrar pela pia, descendo pelo armário branco até o chão, espalhando sujeira por todo o piso, por toda a casa. Algo metaforicamente que começa com a imagem dos relógios de Dalí em "A Persistência da Memória"(diga-se de passagem, maldita memória), e se alastra pra imagem da água azul(ou transparente) de "Premonição" na cena do banheiro. Aumenta o volume da música pra 9%.
Brincar com o esqueiro até se irritar com o tal vento, que não só bagunça o cabelo, mas impede que se acenda o cigarro. Que se foda o cigarro, que se foda o champagne. E que levem junto essa falsidade escrota, esse fingimento de que está(ou que vai ficar) tudo bem.