quarta-feira, 10 de outubro de 2012

filho, peço desculpas.
abracei uma criança hoje pela primeira vez desde que você se foi.
um menino, de 2 anos e alguns meses. não o conhecia, apenas de vista, mas havia percebido que ele era tímido, e, na verdade, eu ando evitando olhar pra qualquer criança.
foi sem querer, filho. pegamos o elevador juntos e ele me olhou e esticou a mão que segurava um cubo mágico. tentei evitar mas não quis ser mal educado.  peguei e fingi que sabia montar, mas logo devolvi. ele me olhou e riu. puxou papo comigo.
me desculpa se obedeci e o abracei com tanta vontade, não era minha intenção, mas acho que eu precisava daquele abraço. o jeito dele brincar e conversar, o sorriso e a voz me lembraram os seus. parecia, por um milésimo de segundos, que você compunha um pedacinho daquele outro menino.
não me leve a mal; eu te sinto com frequencia e sei que, de algum jeito, você me vê e me escuta, mas é que a sua ausência física me dói demais, ainda.
escrevi isso só pra agradecer. se bobear, você decidiu dar um pulinho na terra e transformou meu vizinho tímido em um menino brincalhão, só pra me puxar papo e dar um abraço.
e, filho, se foi de fato isso que aconteceu... espero que você faça a mesma questão que eu em repetir o ocorrido e ele possa me mostrar todos os brinquedos que vai ganhar de dia das crianças e se despedir com um abraço para cada boneco.
do teu pai que sente falta de dormir contigo segurando minha orelha,
um beijo.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

É você?


Bata a porta, faça barulho com as chaves... Eu só preciso ouvir que você chegou.

sem título pt 2646

Eu não sei descrever como as coisas estão desde que você bateu a porta e me disse pra nunca mais te dirigir a palavra. Foram dias, muitos dias e milhões de minutos dos quais não me recordo, passam como um filme com mil falhas, flashes, desconexos... Eu não sei dizer como estou. Tem dias que o aperto bate forte, vezes nas quais me pego distraído e lembro do seu rosto se movendo a poucos centímetros dos meus... Vezes que te odeio com todas as minhas(poucas) forças...

O apartamento é pequeno... Não é bonito e eu odeio os móveis. É gelado, mais gelado que um maldito iglu. Mas estou sozinho aqui e tenho aprendido a apreciar sua ausência...

Perdido, como cartas sem endereço.

Ontem eu sonhei que esbarrava na sua rotina. Que a cortina brincava de iluminar seu quarto com o vento, que eu estava do seu lado. E foi quando o céu ameaçou a chover, você me levou pela mão até o meio da rua, e nossos cabelos molharam. Eu usei a sua toalha.

Como eu poderia chegar e dizer o quanto você é amável? Assim, de uma hora pra outra? Se apenas tropecei na frente da sua porta, e você somente a abriu porque já estava de saída. O que mais eu poderia encontrar? Não sobrou nada muito melhor do que um quarto bagunçado e um coração de papel todo picotado. Minha intenção não era brincar de quebra-cabeça. Alguém chegou antes, não é? Alguém sempre chega antes.

Posso ouvir o barulho das chaves, o motor do carro, num frio úmido de manhã com sereno. Mas não foi para me ver que você arrumou as suas malas. E então o ciúme me pega como uma coceira chata... Ninguém ensina como se desvia o olhar.

Os dias frios voltaram.

Eu fui deixando o amor pra lá. Eu tinha tanto medo de sentir qualquer coisa. Então fui cuidando daquilo que eu esperava de mim, das coisas que eu achava que deveria fazer... Sempre tive medo de morrer no meio de algo, sei lá, qualquer história que eu estivesse escrevendo, ou algum sonho que me acordava todos os dias. É que sempre tive medo mesmo. Sou tão medroso. E me escondi no meu quarto, naqueles livros enormes, nas aulas... E finalmente aprendi a ficar sozinho.

Olha, não me leva a mal não se meus planos são sofisticados demais para te embarcar. Eu penso em tudo, e nunca fui uma pessoa simples, não mesmo.

domingo, 9 de setembro de 2012

i realized that i need you and i wondered if i could come home.

e, de repente, você me ensina novamente como é que se vive a vida... me faz ter prazer em ver pessoas novas e antigas, em me movimentar, em comer direito, sair pra tomar um chopp ao lado de casa, só pra não ter que dirigir e poder voltar andando de mãos dadas com as suas... me ajuda a, devagar, reconstruir a vida... sem querer tapar os buracos e as cicatrizes, mas ajudando a perceber que dá pra ir além... sei lá, piegas, repetitivo, sem sentido. não me importo. de algum jeito, tudo encaixa, tudo funciona, você me funciona tão bem...

http://www.youtube.com/watch?v=xUBYzpCNQ1I

Soneto de separação.

De repente do riso fez-se o pranto

Silencioso e branco como a bruma

E das bocas unidas fez-se a espuma

E das mãos espalmadas fez-se o espanto.


De repente da calma fez-se o vento

Que dos olhos desfez a última chama

E da paixão fez-se o pressentimento

E do momento imóvel fez-se o drama.


De repente, não mais que de repente

Fez-se de triste o que se fez amante

E de sozinho o que se fez contente


Fez-se do amigo próximo o distante

Fez-se da vida uma aventura errante

De repente, não mais que de repente.


(Vinícius de Morais)
some people have expiration dates
as coisas tem se encaixado... vai entender. não vou reclamar.

domingo, 19 de agosto de 2012

e até poucos minutos atrás estava tudo bem, era só mais um final de domingo, assistindo alguns bons filmes no escuro, me preparando para mais um episódio da eterna sentença que é a segunda feira, quando abri uma cerveja e o pensamento foi todo em você... me bateu um nervosismo, procurei seu telefone mas não o tenho na memória do celular. cheguei a tremer enquanto tentava abrir o msn no computador... mas você não estava online. e, sinceramente, se estivesse, talvez nem me respondesse... damn.

sábado, 28 de julho de 2012

Cedo

Eu acordei do outro lado da cama, procurando você. Debaixo dos lençóis e do edredon, dos beijos pela manhã que eu ainda não te dei. Eu acordei do lado de lá da cama, procurava você. E nas palavras pela manhã, um pedaço de mim que eu ainda não te alcancei. Eu acordei, e sentado na cama, abraçava no travesseiro a parte minha que eu esqueci em você.

Aos poucos

Acho tenso deixar todo aquele passado ir. É difícil me deixar pro vento levar, e ao mesmo tempo levantar e correr atrás daquilo que eu acho que quero. É, acho. Eu nunca tenho certeza. Sabe? Não sei se vale o risco, ou o sacrifício. Mas é como se o desenho tivesse mudado, e as peças do quebra-cabeça tivessem que se encaixar diferente dessa vez para montar alguma coisa bonita. E eu só estou aqui, tentando montar alguma coisa bonita. Um quadro novo, desses de deixar na parede. Às vezes a gente demora para se encaixar, mas é só sair, respirar fundo, bater o olho direito, que as coisas encontram o seu lugar, assim, aos poucos.

Possibilidades

Eu ia dormir. Ia mesmo, juro que ia. Dormir em silêncio, e sem você. Sem nem pensar em você, aqui comigo. Mas as possibilidades... Se eu te topasse em alguma esquina do meu bairro? Não te notaria. Repararia no jeito como você anda. Encararia seus olhos, ou seu cabelo. Eu abaixaria a cabeça e passaria reto. Tropeçaria no seu cheiro. Atravessaria a rua e te perguntaria as horas. Te roubaria um beijo. Roubaria seu telefone. E se eu roubasse você? Um dos seus dias. Todos eles. Colocaria todos eles dentro do meu bolso e levaria comigo. Ou deixaria esquecido dentro da gaveta. Debaixo do travesseiro. No meu armário. De quadro na parede. Enterraria no quintal.

Sua voz. Sua voz no meu ouvido. No telefone. No vídeo. No meu fone. Nas caixas de som do meu computador. Na minha cabeça. Você falando sempre. Você quieta. E se a gente não se falasse amanhã? E se a gente não se falasse mais? Nunca mais. Que vontade me deu. Vontade de falar com você.

Au revoir

Pensei que fosse doer mais, e de repente eu não senti mais nada. Nunca achei que esse enfim vazio pudesse me incomodar tanto. Não é como se eu sentisse a sua falta e quisesse te ver, não é como se eu ainda sentisse ciúmes ou vontade de voltar atrás, acho até que não me lembro da sua voz ou do seu cheiro. Talvez seja só uma saudade de sentir saudade, de ter algum sentido, bom ou ruim, em todo caso, um sentido. Talvez eu até prefira chorar, olhar para cima me perguntando onde foi que tudo deu errado. Mas agora eu vejo que tudo deu certo.

Um castelo invisível.

Em algum tempo eu te falaria, mas não hoje. Me sinto um idiota agora que meu passado parece não servir para nada, enquanto o seu é uma ponte pronta para fugir da tristeza. Agora é como se nada do que eu tivesse vivido fosse mesmo me ajudar a encontrar as melhores saídas, enquanto tudo o que você viveu continua vivendo. Em algum tempo eu até te falaria, mas não hoje, onde nada daquilo que é construído pela minha cabeça é real. É como se eu tivesse te construído um belo castelo, mas um castelo invisível, onde você só vive por lá nos meus pensamentos. Mas a pior sensação é essa que tenho de que te vi na vitrine e não pude pagar. E passo todos os dias para te ver atrás do vidro, sem poder te levar embora. Como eu queria poder te levar embora!

How low?

Eu fui mordido pelo ciúme naquela noite. Tudo me irritava: seu cigarro, seu olhar longe, o sorriso preso entre seus lábios. Nada te machucava. Queria ter tido coragem de te matar ali, te estrangular, apertar sua garganta até que você parasse de respirar. Mas a única vontade que eu realmente tinha era essa de te dar um beijo longo, um beijo que te segurasse comigo.

E todos esses dias arrastados em que meus sonhos foram acorrentados às suas pernas, você me levou para longe, tão longe que eu mal podia me alcançar, nem mesmo quando eu achava que havia alcançado você. Alguma vez eu já te alcancei? Eu sei, você nunca vai dizer. E das manobras que a vida deu, eu nunca pensei que pudesse te perder.

Era sempre um alívio quando eu não dormia do seu lado, porque o som do seu sono sempre levou meus olhos a circularem por todo o quarto procurando alguma saída. E eu, que nunca soube fugir, pensava que se segurasse firme o travesseiro e te sufocasse logo de uma vez... Talvez eu viesse a me libertar. Mas no fundo eu sempre soube que viver tentando te matar foi o que te manteve tão vivo dentro de mim.

Salt

"Vamos procurar um barco no horizonte do mar", brincando de cobrir os pés com a areia, assim você dissolvia tudo o que era problema. Eu te odiava só por ser tão seu! E seus braços eram minha casa. Naquela época eu viajava para descobrir você, debaixo do edredom, rindo de sono pela manhã.

Quando eu lembro dos seus olhos grandes... Não quero que você encaixe em mais ninguém! Eu quero ser seu fantasma de todo dia doze. E você ainda vai sentir vontade de me contar a cada gato que te cruzar pela rua, enquanto eu ficarei dissolvido na areia que cobre nossos pés, longe, feito o barco no horizonte do mar; só para você continuar procurando sem nunca mais me encontrar. Nunca mais.

Quando atravessar a rua

Saí pelo asfalto chutando pedras. E andava encarando o chão, apenas torcendo para que numa esquina qualquer um carro esquecesse de frear e passasse por cima de mim. O sentido fugiu de tudo, e eu só queria ter ido com ele, fugindo do mundo.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

é como se pegassem o meu coração, ateassem fogo, pisassem em cima e furassem com milhares de navalhas. filho, como eu queria você aqui...

sexta-feira, 15 de junho de 2012

é porque, filho, de vez em quando, ainda que ocupado nas obrigações do dia a dia, o pensamento se volta totalmente a você; seja no trânsito, no meio de uma refeição, ao achar que escutei alguma risada... é sempre seu rosto que aparece na minha cabeça e me cega pra esse mundo ruim que você deixou pra trás. e se eu me tornei esse ser humano desprezível, que não larga da lata de cerveja, que não cuida dos seus animais de estimação ou mesmo faz a barba, que você tanto odiava, que eu mais me odeio por não ter ido no seu lugar. eu só queria, por mais um momento, você aqui. só mais um dia...

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Eis que você ainda se assusta com o barulho da garrafa de champagne abrindo. Quantos anos já? Pelo menos uns sete, diria. Um brinde e um gole. Outro, pra sentir o real gosto, aquele amadeirado característico do seu Moscatel frutado preferido. Acho que nunca admiti, por ser egoísta e me fingir de requintado, mas também é o que eu escolheria para um brinde, se soubesse que seria meu último. Você sempre criticou minhas manias, mas eu te enxergo com o canto do olho e vejo sua boca tocando a taça duas vezes, e, quando você lambe os lábios, ainda que discretamente, sei que é porque sentiu o tal "amadeirado". Mexo no controle do som ao dar mais um gole, e acendo um cigarro. Você se senta perto de mim, pega um livro, folheia e coloca de volta na mesa, quase que na mesma posição, com um dos pés embaixo da própria bunda. Parece um moleque, às vezes.
Mais um gole. Encher a taça agora vazia.
Nós dois sabemos que o moleque aqui sou eu. Você sempre teve os pés no chão, como se tivesse recebido o "manual de como viver nesse mundo louco", lido tudo e, ainda por cima, consertasse um ou outro erro do autor. Nada parece te abalar, nada penetra essa armadura que se esconde por baixo de uma das minhas camisetas e suas calças largas de moletom, sempre adornados por meias. Seu cabelo está mais curto, suas feições mais finas. Cara de mãe.
Sei exatamente o motivo pelo qual não estamos juntos, mas você se faz de despercebida, age como se não se importasse.
Não consigo terminar esse texto, pelo simples motivo de perceber exatamente qual o ângulo que seus olhos fazem pra me olhar. Que se dane, o que é um texto quando tenho um Moscatel barato servido por você? Sim, faz favor, pode servir.

sobre o nosso último romance.

que saudades que eu tenho daqueles dias. dias que a gente inventou uma paixão, que a gente fechou os olhos pro futuro e quis viver só o nosso cinema cult. dias que foram poucos dias, suficientes entretanto para deixar uma ácida marca de saudades dos seus pés pequenos. demorei tanto para ter a claridade dos teus olhos por perto que quando tive, não soube valorizar. fui orgulhoso e deixei reticências nessa nossa conversa antiga. talvez seja isso o que mais me dói. a história daquele filme parecia prever um futuro breve e a tua música eu já tirei da playlist (ela insiste em tocar nas rádios, fique tranquila). era um frio de Junho, parecido com esse vazio que você deixou na minha cabeça. você não lê muito as coisas por aqui, por isso resolvi entregar que fui muito longe por você. até criar um texto sem respeitar as maiúsculas eu criei. penso em dizer tanta coisa que reuni nesse tempo todo que eu torço pra esquecer ao passar dos anos. não sei dizer se tudo isso foi um adeus. é que a gente nem tchau se deu. e isso machuca.

Bublè

O vento fazendo a franja bater com força no rosto, tampando, por milésimos de segundos, a visão do olho esquerdo, como faz um ventilador. Aquela música baixa, com sotaque inglês, letra batida, forçada, usada, mas que encaixa tão bem no momento.
Parece que não, mas já anoiteceu. A impressão é de poucos minutos, mas passaram-se duas horas, suficientes para gelar o champagne sentado na porta do congelador, colocado em -24ºC e no congelamento rápido. Congelador ultrapassado, velho, sujo. Sujo como o interior da geladeira, que parece se alastrar pela pia, descendo pelo armário branco até o chão, espalhando sujeira por todo o piso, por toda a casa. Algo metaforicamente que começa com a imagem dos relógios de Dalí em "A Persistência da Memória"(diga-se de passagem, maldita memória), e se alastra pra imagem da água azul(ou transparente) de "Premonição" na cena do banheiro. Aumenta o volume da música pra 9%.
Brincar com o esqueiro até se irritar com o tal vento, que não só bagunça o cabelo, mas impede que se acenda o cigarro. Que se foda o cigarro, que se foda o champagne. E que levem junto essa falsidade escrota, esse fingimento de que está(ou que vai ficar) tudo bem.