sábado, 22 de novembro de 2008

Pés

Os pés dançando nos lençóis, os pés se encontrando nos beijos, nos abraços, nos encontros de braços, volumes de ar, resquícios de voz. Os pés que abrem a porta, nos levam para o quarto, e nos trazem de volta.

domingo, 2 de novembro de 2008

nichts wird ändern.

Já fazem meses que eu acordo por você. De manhã a cortina rouba a cor do sol através da luz, e esse começo tem muito do seu nome. Depois, o café da manhã sou eu quem faço; o pão, a fruta, ou seja lá o que for para me libertar da fome, consegue imitar o seu gosto.
E antes de te ver, nas ocupações de todo o dia, se me pego distraído, é perdido em você. Ainda prometo descobrir se é a sua lembrança quem me distrai, ou se é a distração quem me leva os pensamentos até você. A questão é que fico pensando, e pensando... lembro de cada detalhe, qualquer coisa que me faça rir sozinho. Fico remoendo pedacinhos da gente e alimentando a saudade que cresce e continua crescendo até que meus braços estejam enrolados no seu pescoço.
Sei que são apenas poucas horas, no máximo um dia ou dois. Mas a falta me deixa agoniado de vez enquanto, coisa que você resolve fácil com apenas uma conversa. Como pode ser tão leve, doce, aveludada, azulada, e caber perfeitamente dentro do meu coração apaixonado?

Eu me preocupo com qualquer idiotice, sinto sua falta antes do sono, e te durmo sempre dentro de mim. Isso você já sabe de cor. Mas prepare os seus ouvidos, porque enquanto for verdade, eu vou repetir, e repetir, e repetir... até que o dia não repita mais a noite, e a noite não repita mais o dia.

Dualidade

Vai parecer bem piegas, mas vamos lá: estou me sentindo estranho.
Cresce tanta confusão dentro de mim. Vejo-me claramente posto em um trampolim, e o arrepio que sinto não é do medo da altura, mas do jeito como as roupas de banho deixaram meu corpo tão vulnerável para o vento. Abaixo dos meus pés há duas piscinas para eu pular, e não se pode entender a profundidade de nenhuma das duas, tudo sempre fica pequeno visto do alto. Não quero mergulhar. Abraço forte e talvez nunca solte da inveja que tenho daqueles que se apoiam na borda, ora aqui, ora lá, conforme lhes convém. E eu, que vou me afogar. Beber muita água e me afogar em apenas uma das piscinas por enquanto, acho que sou ganancioso demais para isso.

Vaidade

Marcelle tinha ido para o banho. A noite prometia ser ótima, e ela prometia se arrumar à altura. Eu já previa que ficaria no seu quarto por intermináveis duas horas. Sozinho com todas as suas coisas, escolhi dar uma olhada no seu diário. Abri bem no meio, em uma folha marcada por um clips que segurava a embalagem do maço de um malboro vermelho.

"Tem vezes que o cigarro é o único que me acompanha, não perde o passo. Queima conforme o meu fôlego, queima o meu fôlego. Tem dias que é só ele quem me beija a boca e intimida a solidão. Odeio a solidão e, por isso, ao fim do último trago, enfim o salto do filtro ao asfalto, confiro o maço a procura de outro. Maltrata a minha garganta e os meus dentes, altera o meu perfume e a minha imagem, mas eu gosto mesmo assim."

Bom, ela gosta.